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A professora que foi internada no hospital porque passava fome

A professora que foi internada no hospital porque passava fome

Recebi um telefonema do hospital de Leiria.
– É alguém do IF?
– É, sim.
– Temos aqui uma paciente irlandesa que diz ser professora de inglês nessa escola. Deu-nos este número. Gostaríamos de falar com alguém pessoalmente, pois ela diz que não tem cá família.
– OK, vou já para aí.
No hospital um médico muito atencioso contou-me que a nossa professora tinha entrado nas urgências, trazida por uma pessoa que não deixou o contacto. O diagnóstico foi fácil: subnutrição em estado já um pouco avançado. Estava a soro, tinham-lhe feito análises, a situação estava controlada. Tinha de ficar internada pelo menos mais uma noite, para ser vigiada enquanto o organismo recuperava. Mas, depois da alta, era preciso que alguém a convencesse a alimentar-se bem, pois podia recair e então a situação podia ser mais séria.
Eu disse que iria colaborar no que pudesse. Ela era magra, mas eu pensava que era mesmo assim, que talvez fosse das dietas ou da ginástica, as pessoas dos países lá de cima têm hábitos estranhos…
Quando ela voltou ao IF, visivelmente mais saudável, levei-a ao meu gabinete. Estava nervosa, envergonhada, prestes a chorar. Acalmei-a, disse-lhe que podia contar comigo, que me dissesse o que se passava. O ordenado até nem era mau, e era o IF que lhe pagava o quarto, por que razão não se alimentava como devia?
Ela contou a verdade, com os olhos pregados no chão: quando saiu da Irlanda tinha o cartão Visa completamente tapado. O gerente do banco apertou-a e ela comprometeu-se a saldar a dívida em prestações mensais que lhe comiam a quase totalidade do ordenado. Por isso pouco sobrava para comer.
Fiquei com pena dela, até porque era uma professora muito dedicada. Disse-lhe para vir comigo. Entrámos num supermercado e fomos enchendo o carrinho: leite, cereais, queijo, pão de forma, salsichas, latas de atum, sumos, enfim, íamos metendo para dentro, ao calha. Depois de pagar no caixa, disse-lhe: “Estamos no final de Novembro, este é um cabaz de Natal antecipado. A partir de hoje, quando não tiveres dinheiro para comer, vens falar comigo que a coisa resolve-se. Voltares ao hospital quase a morrer de fome, isso nunca mais, ouviste?”. Ela sorriu e agradeceu.
Mais tarde arranjei-lhe umas horas extra para lhe aumentar o ordenado. Acho que foi o suficiente para se equilibrar.
Não sei como aconteceu, mas o assunto vazou no IF. E os alunos adultos começaram-lhe a trazer coisas de casa: batatas, tomates, queijos, ovos, fruta, bolos… Ela agradecia, humilde.
Em Julho fizemos-lhe uma festa de despedida com muita comida, claro. Deixou muitos amigos, que ainda hoje a recordam com saudade.
Aqui há tempos vi uma fotografia dela no Facebook: com mais vinte anos e uns bons quilinhos em cima. Acho que exagerámos na cura, porque se hoje voltasse ao IF tenho a certeza que a íamos aconselhar a inscrever-se num ginásio…

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