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A professora que chorou por ser sexta-feira à noite

A professora que chorou por ser sexta-feira à noite

Estávamos no IF da Marinha Grande. Já passava das dez da noite, as aulas dos adultos tinham terminado. Fechámos o IF e, já cá fora, eu disse “have a nice weekend!”. Não percebi a resposta dela mas notei que estava a chorar. Era uma professora irlandesa que, pensava eu, estava bem ambientada ao nosso país. Vivia em Leiria, num quarto alugado a uma senhora de idade. Perguntei-lhe o que se passava para estar assim. Ela, aos soluços, respondeu-me:
– É sexta-feira, a esta hora todos os meus amigos na minha terra estão a caminho do pub para passar uma noite divertida. E eu aqui não tenho para onde ir. Só me resta ir para o meu quarto, enfiar-me na cama e esperar que o fim-de-semana passe.
Vi que ela estava realmente em baixo. Naquela altura (já lá vão trinta anos!) ainda havia menos sítios onde uma pessoa se pudesse divertir. Sobretudo para uma rapariga sozinha. Fiquei com pena dela. Em vez de ir para casa tomei uma decisão: “Anda comigo”. Entrou no meu carro e fomos à Martingança, ao Alberto, que fazia umas amêijoas maravilhosas acompanhadas de pão quente a sair do forno. Chegaram pessoas conhecidas, alguns até eram alunos do IF e foi uma noite divertida.
Acho que ela gostou. Falámos do problema das sextas-feiras e a partir daí havia sempre alguém a convidá-la para ir beber um copo.
Quando mais tarde visitei a Irlanda tive oportunidade de verificar que ela tinha mesmo razão. Naquele país só as crianças, os velhos e os tesos é que ficam em casa numa sexta-feira à noite.

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