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A professora que ‘reencontrou’ o pai em Portugal.

A professora que ‘reencontrou’ o pai em Portugal.

(Esta não será a história de um”cromo”. A menos que possamos falar de “cromos positivos”, sem sentido pejorativo).

A professora era irlandesa. Em conversa de café, disse-me, com os olhos turvos, que a relação com o pai não era muito boa. A mãe já tinha falecido e o pai assumia uma atitude autoritária que não facilitava o diálogo com a filha. Talvez por isso ela tenha decidido ser professora de inglês a estrangeiros, para assim andar de país em país e estar afastada do pai.
Dizia ela que as férias em casa eram um martírio. Que as poucas frases que pai e filha trocavam entre si eram agrestes e que muitas vezes ele acabava aos gritos e ela retirava-se para o quarto a chorar.
Eu tive uma ideia:
“O problema é que vocês se encontram sempre no ambiente dele, na quinta que ele controla. Se vocês se encontrarem em terreno neutro, talvez a comunicação fosse mais fácil. Tu estás em Portugal, conheces bem Leiria, já te desenrascas a falar português – porque não o convidas a passar uma semana aqui contigo? Ele aqui estaria mais desarmado, ia precisar mais de ti e acho que te iria dar valor”.
Ela respondeu aflita:
“Nem pensar! Primeiro, porque nunca sai de casa, o mundo para ele limita-se à quinta, às vacas, à Irlanda. Depois, ele é muito forte, muito gordo, quase nem consegue andar, até tem problemas cardíacos por causa disso.”
Eu insisti:
“Mas escreve-lhe na mesma, acho que pelo menos ele vai gostar de ser convidado pela filha. Se não vier, pelo menos fizeste um gesto simpático. Se vier, nós ajudamos-te, não te importes. Temos a carrinha, ele cabe bem lá dentro.”
Nunca mais falámos no caso. Um dia toca o telefone no meu gabinete: era ela, a chorar aos soluços, muito aflita, do outro lado da linha.

— Que se passa?
— Recebi hoje a carta!
— Morreu-te alguém?
— Não! A carta é do meu pai com a resposta, e ele diz que vem!

Tentei acalmá-la, porque estava em pânico e não parava de fungar.

[…]

Vou abreviar o fim da história:

Ele veio. Chegou ao aeroporto, mandou alugar um carro, passou a carteira e as chaves para as mãos da filha disse-lhe que era ela que ia controlar tudo. Admirada, ela viu que tinha à frente uma outra pessoa e foram dois grandes amigos durante uma semana. Todos os que com ele lidaram ficaram encantados: sempre a sorrir, meigo, uma delícia de homem. Tínhamos de ter cuidado com ele por causa da obesidade (e mandar vir duas canecas de cerveja de cada vez) mas de resto ele foi fantástico. Pai e filha refizeram a relação em Portugal. Ele ainda tentou adiar a partida (queria à força assistir a uma tourada) mas partiu na data marcada. Quando chegou à Irlanda falou a todos os amigos de um paraíso chamado Portugal.. Faleceu cerca de um ano depois dessa visita. Tinha um grande sentido de humor, por isso pediu para lhe escreverem na lápide:

“Aqui jaz G. M. que morreu a fazer dieta de coelho e peixe. Que descanse em paz.”

 

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