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O professor que queria uma casa na praia

CROMO-4: O professor que queria uma casa na praia

Eu estava no café Cimarina e vi estacionar uma carrinha de matrícula inglesa perto do IF. Era “ele”. Tinha-me dito que vinha de carro, mas naquela velha carrinha adaptada espera-se que surja um turista “pé descalço” e não um professor de inglês. Vi sair um rapaz de cerca de trinta anos, ar desleixado, barba por fazer. “Mais um barrete”, pensei. Ainda estive tentado a não lhe aparecer, mas lembrei-me do currículo que me tinha enviado, da sua experiência em diversas escolas, talvez o aspecto e a carrinha não significassem assim tanto. Podia ser um bom professor, porque não?
Apresentámo-nos. Rejeitou o café que lhe ofereci. Não parava de olhar à volta, meio desconfiado. Disse que estava cansado da viagem, que queria descansar. Levei-o a S. Pedro de Moel, para a casa que eu lhe tinha alugado próximo do mar, perto do hotel e da escola primária.
Não apareceu durante dois dias. Não me preocupei porque ainda faltava cerca de uma semana para começarem as aulas. Ao terceiro dia chegou ao IF a meio da tarde e perguntou à recepcionista onde podia comer qualquer coisa. Quando regressou, fui dar com ele no corredor, de nariz no ar, a tentar ler informações escritas em português. Sem me cumprimentar, perguntou-me se eu conhecia nos arredores algum bar onde tocassem música ao vivo à noite. Ao ver o meu ar de espanto, acrescentou que tocava saxofone e que queria fazer umas horas à noite. Se lhe pagassem, claro. Dei comigo a pensar: como é que um tipo me aparece para trabalhar, e ao fim de tanto tempo nem uma pergunta sobre a escola, as aulas, os livros, os horários, nada?

No dia seguinte apareceu de manhã, nervoso, e disse que queria falar comigo em particular, pois era um assunto muito sério. Disparou à queima-roupa: tinha sido enganado. Eu tinha-o enganado, e ele estava muito ofendido. Explicou-se: eu tinha-lhe mentido no fax que lhe enviara (e estendeu-me uma cópia do fax). Batia com o dedo da mão direita no papel, que segurava firmemente na outra mão: ali estava claramente prometido que eu lhe arranjaria uma casa “ON the beach” e afinal ele estava a morar numa casa “AT the beach”. Eu não devia ter-lhe mentido, não era aquilo que ele tinha pensado, sentia-se enganado!
Por isso ele queria voltar para Inglaterra e eu tinha-lhe de lhe emprestar dinheiro para a gasolina e outras despesas porque afinal a culpa tinha sido minha. Não lhe devia ter prometido uma casa em cima da praia!
Podem imaginar o que senti e a cara de espanto que fiz. Mas eu sabia que o melhor era não forçar. De nada me valia tentar manter um professor contrariado, por isso emprestei-lhe o dinheiro. Apenas lhe exigi que assinasse um papel de dívida, que ambos sabíamos nada valer. Nesse dia à noite teve a lata de ir tocar saxofone para a entrada do IF de Leiria, sentado nas escadas.
Foi-se embora no dia em que começava o ano lectivo, sem sequer se despedir.
Passado um mês recebi uma carta dele, completamente escrita a vermelho. Entre outras coisas (todas desagradáveis) dizia-me que escusava de esperar pelo dinheiro, porque afinal a culpa tinha sido minha e se havia alguém prejudicado era ele. E que no futuro tivesse mais cuidado com o que eu escrevia. Que eu nunca mais prometesse uma coisa e depois apresentasse outra.
Ainda hoje, passados tantos anos, me custa a engolir este episódio. Talvez por isso eu o tenha mantido quase em segredo. Fiz realmente uma triste figura, por não ter utilizado as preposições de forma correcta…
(Ou seja: parece-me que afinal o verdadeiro cromo nesta história fui eu, não?)

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