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A professora “ciclista”

CROMO-2 : a professora “ciclista”

Era ruiva, cabelo curto, em boa forma física, aparentava trinta anos. Ninguém a separava da sua querida bicicleta de corrida. Eu sabia disso, porque a tinha entrevistado na sua terra, uma vila no sul de Inglaterra, e esse nosso encontro tinha sido estranho.
Cheguei lá cerca das quatro, ela cumprimentou-me e disse-me que estava na hora da sua volta de bicicleta, por isso eu tinha de esperar. E esperei, mais de uma hora, sentado num muro, a cogitar: “Então eu tinha feito centenas de kilómetros só para a entrevistar, e a gaja deixa-me ali pendurado? É preciso ter lata!”. Falámos, ela realmente tinha ensinado em várias escolas, parecia muito competente, fez muitas perguntas acerca do IF e de Portugal, mas no final disse que ia pensar. No dia seguinte telefonou-me, perguntou-me outra vez se Leiria era bonita e quando lhe falei da proximidade do mar concedeu em aceitar o emprego. Pensei: “Quase todos os candidatos são estranhos, que se lixe. Pode ser uma boa professora. Se aparecer”.
E apareceu, em Setembro. A bicicleta fazia parte da bagagem.
No IF fazia o que lhe era devido, com cara de poucos amigos. Fora do IF ninguém a via: solitária, sempre a andar de bicicleta. O quarto que lhe arranjámos era no centro histórico de Leiria, com uma janelinha que dava para um telhado. Disseram-nos que saltava a janela e passava a maioria dos sábados e domingos sentada nesse telhado, a olhar.
Um dia os alunos começaram a comentar, entre risotas, que ela não usava cuecas. Como descobriram? Como a professora dava as aulas com as calças de licra que usava para andar de bicicleta, os olhos dos alunos (perspicazes nestas coisas) descobriram que o tecido elástico estava todo esticado por igual: nem rugas nem volumes que indicassem ter algo vestido por baixo. Então de costas a evidência era maior. Não havia dúvidas: a “teacher” não usava cuecas.
Teve de ser chamada à atenção. Ela virou má cara, ainda esboçou um protesto, mas passou a dar as aulas com calças normais (para desgosto dos alunos).
Em Dezembro foi passar as férias de Natal à terra, no sul da Inglaterra. Levou tudo, incluindo a bicicleta. Não voltou em Janeiro e teve de ser substituída.

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