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A professora “cabrona”

A professora “cabrona”

Ouço bater à porta do meu gabinete e mandei entrar. Era a professora nova, que chegara há pouco tempo para substituir uma outra que tinha voltado para Inglaterra por não aguentar o nosso frio. Era franzina, alourada, inglesa. E vinha com olhos de chorar. Sentou-se e começou aos soluços, enquanto explicava o seu drama.
Estava indignada! Tinha sido gozada, enxovalhada, e não estava para aturar a má educação dos alunos! Assim voltava para Inglaterra. Fiquei intrigado, porque ela só tinha alunos adultos. Mais calma, explicou-me o que tinha acontecido.
Numa aula, para desanuviar, ela tinha falado dela e da dificuldade que tinha em comunicar com as pessoas porque não sabia português. E pediu aos alunos para lhe ensinarem a falar qualquer coisa prática. Os alunos ensinaram-lhe a dizer o nome e ela repetiu várias vezes. E ensinaram também a dizer “obrigado”, “quanto custa”, “bica” e “galão”. A professora, a rir, lembrou-se então de perguntar como se dizia em português “I’m very nice”. Um aluno disse, com voz segura e ar sério:
— Em português diz-se “Sou cabrona”.
Os outros ficaram surpreendidos, olharam uns para os outros, mas não se desmancharam. E não descansaram enquanto a professora não aprendeu a pronúncia correcta.
Nessa noite, depois das aulas, a professora foi ao café e resolveu usar o que tinha aprendido. Pediu uma bica e agradeceu ao empregado em português correcto. As pessoas com quem estava à mesa deram-lhe os parabéns. Despejou logo todo o reportório que tinha aprendido, e recebeu mais aplausos. Entusiasmada, encarou a assistência e exclamou, pausadamente, com um sorriso: “Sou cabrona!”. Mandaram-na repetir e ela, orgulhosa: “Sou cabrona!”. Romperam as gargalhadas à volta. De tal modo que ela desconfiou de tanto alarido e foi-se embora. No dia seguinte não descansou enquanto não lhe disseram o que aquilo significava. Tinha feito figura de parva graças aos seus alunos! Por isso estava revoltada e queria que eu fizesse qualquer coisa. Ou então punha-se a mexer. Disse-lhe que ia falar com os alunos e ela saiu, a fungar.
Entrei na sala de aula e pedi explicações. Eram todos adultos, alguns tinham cargos de chefia em empresas, o que tinham feito era inadmissível. Um aluno lá do fundo disse: “Primeiro diga-lhe que lá por ser inglesa não tem o direito nos tratar mal. Na primeira aula que nos deu chamou-nos estúpidos, e aqui ninguém gostou. Acho que agora vai passar a ter mais cuidado com a língua…”
Confrontei a professora. Ela justificou, aflita, que “stupid” em inglês não é ofensivo, não é forte. E dentro de determinado contexto tem até conotação carinhosa. Eu disse-lhe que em português podia ser uma ofensa. E fui explicar isso mesmo aos alunos, em frente dela. O caso ficou sanado e a professora acabou por ser bastante feliz durante o tempo que esteve no IF. Provou ser realmente simpática. E ainda hoje se deve lembrar da palavra “cabrona”…

 

 

 

 

 

 

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